Descadeirada

Descadeirada

Hoje de manhã eu fui buscar o meu passaporte que, finalmente recebeu a etiqueta com meu visto de trabalho. Eu poderia ter ido ontem, a pé, e ter esperado meu marido me buscar na volta do trabalho, mas eu teria que esperar por ele uma hora e meia, sem biblioteca aberta, nada para fazer. Então, eu tive a idéia de ir hoje, de bicicleta. Ontem o Morten deu uma revisada na magrela e estava tudo certo. O passeio foi cansativo para mim, que não andava de bicicleta há mais de uma década (!). Mas, entre paradas para beber água, paradas para descer da bike e empurrá-la nas subidas, eu cheguei à delegacia. Depois, fui ao mercado e voltei, no mesmo ritmo. Vou tentar aproveitar este restinho de verão para pedalar mais, é uma excelente atividade física e eu já sei que, se eu pretendo algum dia esquiar decentemente, preciso estar em boa forma, principalmente nas pernas.

No trabalho, houve um contratempo. Terça-feira, eu pensei que faria limpeza apenas em uma empresa e terminado o trabalho, voltei para casa com o Morten. Alguns minutos depois, minha chefe ligou e disse que eu estava escalada para ir limpar o mercado também. Na escala dela, não na minha.  Fui praticamente forçada a dizer que iria limpar o mercado também. Esta é uma coisa que eu detesto neste emprego. Parece que você sempre tem que estar a postos, pronta para ir trabalhar, não importa a hora em que ligam. Ontem, dia de folga, a chefe perguntou se eu poderia limpar o mercado de novo. Eu recusei, pois estava resfriada. O problema todo se deu por que uma outra funcionária havia dito que limparia o mercado todas as noites, mas, na última hora desistiu, deixando um buraco na escala da semana. Amanhã pensei que teria folga, mas aceitei ir limpar uma empresa por apenas 2 horas. Aliás, eu terei que ir limpar com uma funcionária que ‘bóia’ totalmente no norueguês. Temos que falar com ela como o Tarzan, com palavras soltas e muitos gestos. Aí, já viu…eu acabo tendo que fazer quase todo o trabalho, pois eu digo como deve ser feito e parece que entra por um ouvido e sai pelo outro. Reclamei para a chefe, mas acho que também entrará por um ouvido e sairá pelo outro, pois aqui onde eu moro, ninguém quer trabalhar fazendo limpeza e as poucas que aparecem a chefe tenta manter no emprego o máximo possível.

Sábado eu vou trabalhar numa festa, servindo o jantar e recolhendo as louças da mesa. Deve durar umas quatro horas. Eu aceitei, só para fazer algo diferente e que não me parece ser muito difícil. Meu marido estará de plantão, então nós dois trabalharemos.

Mudando de assunto e falando um pouco do que tem acontecido na Noruega, ontem eu vi um caso chocante na TV daqui. Vou contar a história que eu li no jornal VG. Um homem estrangeiro chamado Ali estava em um parque com seu filho pequeno e, ao ver alguns homens jogando futebol perto da crianças, foi pedir-lhes que parassem. Um dos homens, irritado, espancou Ali, que caiu no chão desorientado e sangrando muito. Chamaram a ambulância e a polícia. E o mais chocante de tudo aconteceu. Um paramédico começou a fazer perguntas ao homem ferido, e quando ele tentou se levantar, urinou. O paramédico teria dito: “Seu porco, eu não vou te levar na ambulância, não!”. A polícia? Apenas fez algumas perguntas e foi embora. Nem a ambulância nem a viatura policial prestaram atendimento ao homem! Duas horas depois, finalmente Ali deu entrada no hospital, com traumatismo craniano e está no hospital em estado grave. Fala-se agora que foi racismo, que negaram atendimento a Ali por que ele é estrangeiro. Eu estou aqui há somente 10 meses, não acho certo formar uma opinião precipitada sobre o norueguês e o racismo, mas que existe, existe. Outro dia, meu marido fez uma reportagem sobre um panfleto que foi distribuído nas caixas de correio da ilha vizinha por um grupo claramente racista. Voltarei a falar mais disso nos próximos posts.

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