O Cisco e a trave

O Cisco e a trave

Quem era eu para falar mal da UDI norueguesa…

Desde que cheguei na Noruega e comecei meu complicado relacionamento com a UDI, o departamento de imigração deles, escrevi várias postagens reclamando muito do atendimento, da demora e do sistema que aparentemente não funcionava. Hoje, já com o visto permanente, não preciso mais enfrentar as filas e preencher a infinita pilha de formulários para garantir que a minha estadia no país esteja sempre na legalidade. E o atendimento melhorou muito no últimos anos.

Até que um dia, a situação se inverteu e foi o meu marido quem teve que pedir visto para ficar no Brasil mais de três meses (período máximo para estrangeiros residirem no país sem visto) junto à Polícia Federal.

Mordi a língua.

A bagunça já começou na Noruega, quando eu escrevi um e-mail para a embaixada perguntando sobre a necessidade de ele pedir visto, já que iríamos ficar no Brasil mais de três meses. A resposta que veio é que sim, ele teria que pedir visto temporário. Aqui, na polícia federal, me informaram que na verdade ele poderia, sim, ficar aqui mais de três meses sem visto se tivesse solicitado uma prorrogação de sua estadia.

Mas, sem ter recebido essa informação da embaixada (que eu tampouco achei no site da PF), lá fomos nós dar entrada na papelada. Preenchimento de formulários, pagamento de taxas nada razoáveis. Poucos dias depois, uma funcionária ligou da embaixada para meu marido falando um norueguês incompreensível e um inglês mais incompreensível ainda (não sabia que era tão fácil assim arrumar emprego em embaixada) dizendo que não havia recebido os pagamentos necessários. Depois de muitos telefonemas, até que enfim ela encontrou os pagamentos. Algumas semanas depois, avisaram que o visto havia sido concedido e que teríamos que comparecer à embaixada com o passaporte dele. Eu pensei que a etiqueta do visto seria colada no passaporte na hora, mas qual não foi a minha surpresa ao saber que não, o passaporte teria que ficar com eles entre duas e quatro semanas até a etiqueta ser colada. Mais irritação e ainda por cima o medo de o visto não ser colado à tempo da nossa viagem à Espanha, uma semana antes da viagem ao Brasil. Felizmente, o visto ficou pronto à tempo. Nos disseram que era obrigatório comparecer à PF em São Paulo no máximo 30 dias após chegar ao Brasil. Tudo bem, pensei, deve ser uma visitinha de praxe, só por formalidade.

Tá bom…

Assim que aterrissamos em Guarulhos, cerca de 6hs da manhã, tentamos resolver isso, indo ao escritório da PF que tem lá. Meu marido perguntou se o escritório estava aberto e responderam, com cara de espanto total: “Não, estamos fechados! Talvez vamos abrir às 8hs…”. Não quisemos esperar, então fomos à sede da PF alguns dias depois, ainda achando que essa visita seria só uma formalidade. Chegando lá, recebemos a infeliz notícia de que teríamos que reunir mais documentos, pagar mais taxas e preencher mais formulários. A embaixada não havia dado visto temporário ao meu marido, mas sim, um visto permanente! Ele teria que tirar RNE, o RG do estrangeiro! Eu expliquei que esse não era o visto que havíamos pedido, pois vamos ficar aqui somente 5 meses. Eles responderam que agora que demos entrada na papelada, ele teria que concluir o processo, caso contrário poderia ter problemas com a imigração em futuras viagens ao Brasil. Lá fomos nós fazer tudo de novo.

Ontem, voltamos à PF com a documentação. Enquanto conferiam a documentação, as atendentes ficavam brincando entre si o tempo todo, conversando por SMS com seus respectivos namorados e bocejando. Estava tudo certo.  Meu marido teve que recolher as suas impressões digitais (na Noruega isso não existe, só para pessoas que são presas), mas aí veio outra bomba: a RNE dele não ficaria pronta antes de, no mínimo, 6 meses! Em 6 meses já estaremos de volta à Noruega! Expliquei isso para as atendentes, perguntei se não teria como elas apressarem o processo, mas nada feito. Uma delas teve até a cara de pau de dizer:
“Vocês têm que vir aqui retirar o RNE, nem que seja para viajar para cá somente por um dia” . Aham, como se viajar da Noruega para o Brasil para ficar um dia fosse muito fácil, para não dizer barato…

Disseram ainda que, se meu marido sair do Brasil e voltar com um protocolo vencido, corre o risco de não poder entrar. A solução vai ser fazer uma procuração (mais despesas com cartório), para que alguém da minha família retire o RNE no nome dele e nos envie pelo correio. Mais uma: para que seu RNE tenha validade, ele terá que vir ao Brasil em intervalos de no máximo 2 anos para que não o perca.

Conclusão: vale mais a pena entrar sem visto e tentar driblar a lei do que fazer tudo de modo legal. Nunca mais vou reclamar da UDI da Noruega.

4 Replies to “O Cisco e a trave”

  1. Nossa, Raquel, que falta de informação e que burocracia terrível! Fiquei chocada. Que decepção hein. Como que uma pessoa que fala um inglês e um norueguês incompreensível trabalham numa embaixada? Ela falava português pelo menos? haha.

    Mas o visto permanente dele é igual o que você tem na Noruega entao?

    beijos

  2. oi Raquel tudo bem? nossa fiquei de queixo caido ao ler seu post quanta burocracia, que cansado e quanto dinheiro, da ate vergonha né. só uma pergunta eu não entendo muito disso nunca viajei pra fora mas vc tem o visto permanente certo então vc e cidadã norueguesa ou não? bjsssss nesta hora e pedir a Deus por um milagre.

  3. Oi, Marcela!
    Acho que algumas pessoas que trabalham na embaixada não estão lá por competência, mas por QI (quem indica), infelizmente…
    Sim, o visto é por período indeterminado, mas para mantê-lo, meu marido deve vir ao Brasil no mínimo a cada dois anos para não perder o RNE. Beijos!

  4. Oi, Sylmara!
    Não, eu não tenho a cidadania ainda, mas se eu quiser, posso pedir. O problema é que custa uma nota (mais ou menos mil reais!) e demora muito para sair (e enquanto se espera sair, é proibido sair da Noruega). Beijos!

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