Måned: november 2013

Slow TV, ou televisão lenta – um fenômeno norueguês

Slow TV, ou televisão lenta – um fenômeno norueguês

Dezembro chegando e nossa aventura no Brasil se aproxima mais do final. Sinto, sim, falta da minha casinha e das minhas coisinhas na Noruega, mas fiquei sabendo que houve uma tempestade violenta chamada Hilde por lá e que agora praticamente só neva. Melhor ficar por aqui mesmo. Em Santos o tempo não está muito bom, mas tivemos 10 dias de temperaturas ótimas para pegar uma praia e estamos satisfeitos por enquanto. Logo faremos uma viagem curta ao interior e então voltaremos para lá na esperança de aproveitar nossos últimos momentos em terras brasileiras sob sol e calor.

Retomei um hobby que havia iniciado recentemente, o de tricotar. Gosto de passar algumas tardes chuvosas tricotando e, conforme eu já havia escrito em outra postagem, saber tricotar na Noruega é quase uma obrigação para quem quer sempre ter roupas de lã diferentes e não quer ou não pode gastar muito. Após ter ido fazer comprinhas de acessórios para tricô em São Paulo e em Santos, eu constatei que a qualidade das lãs da Noruega é muito superior. Aqui as lãs são em sua maioria de acrílico, não de lã pura. Na Noruega há quase somente novelos de lã pura de ovelhas, além de lã de alpaca, merino, mohair, etc. Aqui até se consegue achar essas outras qualidades de lã, mas os preços são bem salgados. Agulhas de tricô aqui são muito mais baratas, tanto que eu já tratei de comprar muitas para levar na bagagem. Na Noruega encontra-se muitas lãs e acessórios em uma lojinha chamada Nille, que vende artigos para festas, decoração, etc.  Existem também lojas especializadas em tricô e crochê, sempre lotadas de tricoteiras e crocheteiras.

E, falando sobre tricotar, quero contar sobre o mais recente programa da TV norueguesa da categoria Slow TV, ou televisão lenta. A TV estatal NRK parece ter conseguido a façanha de transformar a televisão lenta em um fenômeno. Tudo começou em 2009, quando eles transmitiram ao vivo, sem interrupções, o passeio de trem da linha Bergensbanen em Bergen filmando de dentro do trem. Para se ter uma ideia, a primeira parte do programa que está no You Tube (clique aqui para assistir), dura 217 minutos!

Depois, em junho de 2011, o projeto foi mais ambicioso. Exibiram a viagem de um dos navios de cruzeiro da famosa frota dos Hurtigruten, um dos orgulhos noruegueses, de Bergen até Kirkenes. A transmissão durou 134 horas! Este programa lembro que foi muito especial, até emocionante em alguns (pouquíssimos) momentos, por que habitantes de cada cidadezinha pela qual o Hurtigruten passava faziam uma festa, portavam cartazes com saudações só para ter a alegria de aparecer por alguns segundos na TV. Eu tenho um carinho especial pelo Hurtigruten, por que todo santo dia, às 6hs, 8 hs, 10hs e 12hs, via (e verei ao retornar) da minha janela o navio atracar em e zarpar de Trondheim. Clique aqui para se entreter com 134 minutinhos do programa.

Em agosto de 2012 foi a vez de filmar a viagem através do canal de Telemark do município de Skien até o município de Dalen. Este programa foi mais «curto» – 10 horas, mas cada minuto foi transmitido ao vivo sem interrupções. Clique aqui para assistir. Em dezembro do mesmo ano, veio um programa com uma ideia interessante: exibir a viagem pela linha de trem Nordlandsbanen, saindo de Trondheim com destino final em Bodø, com imagens feitas durante as quatro estações do ano. Clique aqui para assistir às quase dez (!) horas de programa. As músicas de fundo são lindíssimas.

Mas, depois de tantas viagens com belas cenas de paisagens, eles mudaram um pouco o conceito do programa de televisão lenta e vieram com o Nasjonal vedkveld e o Nasjonal vedmorgen em fevereiro deste ano. Nada mais nada menos do que 12 horas de transmissão em que uma fogueira e lenha eram as estrelas principais (!?). Convidados iam e vinham enquanto «proseavam» em volta da fogueira, colocavam lenha na mesma e assim por diante. Eu particularmente achei a ideia um pouco boba, mas parece que foi um sucesso. Clique aqui para assistir a um compacto de duas horas do programa.
 
E, para chegar aonde eu queria, os últimos programas de televisão lenta da NRK foram justamente sobre tricô!  O nasjonal strikkekveld e  o nasjonal strikkemorgen, nos dias 1 e 2 de novembro deste ano. Mais 12 horinhas ininterruptas com gente tricotando e falando sobre lã e tudo mais que tem a ver com tricotar. Soube pelo Facebook que muitos tricoteiros assistiram ao programa enquanto trabalhavam com seus próprios projetos de tricô. Um grupo de amigos bateu o recorde norueguês ao levar 8 horas, 35 minutos e 23 segundos para tosar a ovelha Guri, fiar a lã da Guri em uma roca e tricotar um suéter com esta mesma lã. Clique aqui para ver a parte 1 do compacto e aqui para ver a parte 2.

Não há a menor dúvida de que o conceito de televisão lenta agradou muito na Noruega, mas eu não sei se agradaria no Brasil, pelo menos não com temas tão inocentes e aparentemente, para alguns, tediosos quanto fogueiras e tricô. Agora é aguardar a próxima transmissão lenta da NRK e ver o que eles vão querer filmar durante horas a fio.

Um episódio de racismo na Noruega

Um episódio de racismo na Noruega

Ontem, lendo o jornal local da cidade em que resido na Noruega, me deparei com esta notícia aqui, publicada dia 16 de novembro. Segue a tradução abaixo:

Agredida e xingada de «svarting» no meio da rua

Em dois episódios diferentes, Maya (22) e Halat (20) teriam sido vítimas de agressão física e xingamentos na rua Munkegata em Trondheim.

Por Børge Sved

Maya Saleh (22) e Halat Hassan Mohammad (20) contam que não se sentem seguras quando andam sozinhas em Trondheim após terem sofrido as agressões, ocorridas com menos de uma semana de intervalo entre si.
Saleh diz que percebe que há um outro clima após o triplo assassinato no condado de Sogn og Fjordane, quando um homem que pedia asilo político na Noruega assassinou três pessoas (N. da T.: os assassinatos ocorreram dentro de um ônibus. O motorista, um homem sueco e uma moça norueguesa morreram).
– Tem sido mais frequente. Cada vez que algo assim acontece e há um estrangeiro por trás do episódio, eu noto que as pessoas ficam mais céticas comigo durante um período. Eu creio que talvez os assassinatos do ônibus tenham algo a ver com isso, diz Saleh.

Gritou «Svarting»

Foi na segunda-feira à noite mais ou menos às 23hs que Maya Saleh estava esperando o ônibus na rua Munkegata. Ela havia passado no mercado Kiwi um pouco mais adiante na rua e estava a caminho de casa, quando uma mulher de repente teria começado a gritar com ela.
– Primeiro ela gritou «svarting» (termo pejorativo para xingar pessoas de pele escura). Eu pensei que ela estava bêbada e decidi ignorá-la. Mas, ela se aproximou mais e mais e de repente ela estava logo atrás de mim. Então ela começou a me empurrar e a dizer que pessoas como eu são o motivo pelo qual há gente pobre morando na rua na Noruega, conta Saleh.

Partiu para o ataque

Saleh é da Síria, mas veio para a Noruega como refugiada aos 11 anos de idade. A família vive em Arendal, mas Saleh tem nos últimos anos estudado Ciências Políticas em Trondheim. Ela diz nunca ter passado por algo semelhante.
– Estava bem claro que a mulher me abordou por causa da cor da minha pele. Ela dizia o tempo todo que estrangeiros se aproveitam do NAV (N. da T.: serviços de assistência social da Noruega) e que nós imigrantes roubamos o dinheiro deles. Então os ataques começaram a ir mais para o lado pessoal. Ela disse coisas feias sobre a minha família. Eu fiquei indignada e disse que este é o meu país. Então ela começou simplesmente a repetir o que eu dizia em um tom sarcástico, ao mesmo tempo em que me empurrava cada vez mais e tentou arranhar meu rosto. Foi então que eu tive que jogar minhas sacolas de compras no chão e me defender, conta Saleh.

Cusparadas e puxadas de cabelos

Apenas alguns dias antes disso, teria ocorrido um ataque semelhante na rua Munkegata. Halat Hassan Mohammad conta que ela foi atacada e repreendida por uma mulher na quinta-feira da semana anterior. 
– Eu havia saído do trabalho às nove horas e andava sozinha pela rua. De repente, uma mulher começou a falar inglês comigo. Eu perguntei se ela poderia falar norueguês. Então ela começou a  dizer  «Você chama as norueguesas de prostitutas». Eu disse que não, eu não faço isso. Então ela cuspiu em mim e me chamou de «prostituta maldita». Ele começou a me acusar pelos assassinatos no Oeste da Noruega (N. da T.: os assassinatos do ônibus), conta Mohammad.
Ela tentou sair do local, mas a mulher a pegou pelos cabelos e a impediu de ir embora.
– Eu me virei e perguntei o que ela queria. Ela então respondeu que ia me dar uma surra, diz Mohammad.

Conseguiu ajuda

Tanto Saleh como Mohammad tiveram ajuda de pessoas que passavam pelo local e seguraram a mulher que as agredia. Saleh foi ajudada por um homem que também estava à espera do ônibus. Ele a tirou de longe da mulher e a levou para uma loja de conveniência nas proximidades.
– Quando entrei lá eu tive um ataque de nervos e comecei a chorar. Eu sinto que a Noruega é meu país, que estou bem integrada. Eu fiquei em estado de choque após o acontecido e não entendo como coisas assim podem acontecer. O que aconteceu segunda-feira foi muito triste, conta Saleh.

– Uma mulher comum

As duas moças vêm de partes diferentes do país e não se conhecem. As duas deram queixa na polícia.
– Era uma mulher comum que me agrediu, ela não estava bêbada e nem era viciada em drogas. Eu percebi isso pela sua maneira de falar e pelo modo de bater. Ela tampouco parecia estar mentalmente desequilibrada. Mas ela era norueguesa, aparentava ter cinquenta anos no mínimo, um pouco mais baixa do que eu e falava o dialeto de Trondheim, mas não tão carregado, diz Saleh.
Mohammad também acha que a mulher que a atacou não estava alterada. Ela acha que o episódio pelo qual Saleh passou parece muito com o que ela própria vivenciou.

Sem comentários

A Polícia confirma que os dois casos estão sob investigação, mas não quer divulgar mais detalhes.
A Polícia não quer comentar se os casos têm ligação entre si.

Nervosas

Saleh conta que ela sempre se sentiu segura em Trondheim durante o tempo que tem estudado lá. Porém, agora ela diz que se sente mais insegura quando se desloca sozinha pela cidade.
– Fico feliz por haver pessoas presentes quando tudo aconteceu, e pelo fato de ter sido uma mulher quem me  agrediu. Eu senti que tinha controle sobre ela. Se tivesse sido um homem e se eu o tivesse encontrado na rua, eu acho que eu teria me ferido, conta ela.
Mohammad diz que ela também sente medo após ter sofrido a agressão.
– Já não me sinto mais segura, quem sabe o que ela é capaz de fazer, diz Mohammad.

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É uma noticia triste de se ler, pois para mim Trondheim é um lugar muito seguro para se viver. Porém, infelizmente há algumas pessoas que gostam de generalizar e achar que todos os estrangeiros têm mau caráter. Uma vez, eu e meu marido presenciamos uma mulher (seria a mesma mulher que atacou Maya e Halat?) xingando um rapaz. Ela disse, entre outras coisas: «Volte para o lugar de onde você veio!». Espero nunca passar por isso, mas caso aconteça, espero poder explicar que eu sempre trabalhei e paguei meus impostos  e que nunca fui parasita do NAV. O novo governo da Noruega é formado por partidos que sempre tiveram a clara intenção de limitar a entrada de imigrantes, e há tanto quem defenda esta postura como quem condene. Eu creio que a grande maioria dos imigrantes está aqui para trabalhar honestamente e se integrar.