Kategori: Contrastes entre Noruega e Brasil

Boletim das férias II

Boletim das férias II

Este está sendo, sem sombra de dúvidas, o melhor verão que presenciei desde minha mudança para cá em 2006. Nunca houve tantos dias quentes e ensolarados seguidos. Estamos, claro, nos sentindo sortudos por não termos viajado para o exterior desta vez.

Infelizmente o Brasil não passou da Alemanha, que se consagrou campeã do mundo pela quarta vez. Não sofri nenhum tipo de gozação por parte dos noruegueses. Eles mostraram solidariedade pela derrota e perguntaram até se eu estava bem. Muito civilizado da parte deles.

Desde que voltamos do Brasil em dezembro, estamos sem carro. Como moramos no centro da cidade, perto de praticamente tudo, decidimos esperar para comprar um carro até agora. Já escolhemos o modelo que queremos e esperamos que em breve estejamos motorizados novamente. Dentro de uma semana meu marido terá três semanas de férias e pretendemos passear de carro pela Noruega. Prometo fotos caso o passeio se concretize.

Aproveitando o tema, quero contar um pouco sobre o sistema de ônibus aqui de Trondheim. Não lembro se escrevi isso em outra postagem, mas vou escrever mesmo assim.

1. Você sabe mais ou menos com exatidão quando o ônibus vai passar. As tabelas de horários estão disponíveis para os usuários no ponto do ônibus, em pequenos livrinhos que são distribuídos nos ônibus, na internet e em apps. Este é um exemplo de uma tabela de horário:

Podemos ver os horários em que o ônibus parte do ponto final, além do horário estimado para a parada em cada ponto. Em dias úteis, sábados e domingos.

Como nem sempre o ônibus passa exatamente no horário impresso na tabela, há monitores na maioria dos pontos que são atualizados minuto a minuto e mostram dentro de quantos minutos ele vai passar:

Dentro dos ônibus também há monitores que exibem os três pontos seguintes a cada parada e cada ponto é anunciado por autofalantes em uma gravação. Na foto podemos ver o monitor na parte superior:

2. O pagamento da passagem parece muito com o sistema de São Paulo. Podemos pagar com dinheiro ao motorista (não existe cobrador), com cartão de transporte devidamente carregado com créditos ou pela internet ou por máquinas espalhadas pela cidade e pelo aplicativo Mobillett. Eu estou usando o aplicativo agora que estou de férias. Quando estou trabalhando eu costumo carregar créditos por período, geralmente por um mês, o que me dá direito de andar de ônibus, bonde e barco sem limites por Trondheim e municípios adjacentes. Temos que colocar créditos na nossa conta do aplicativo e podemos comprar a passagem pelo celular, que mostramos ao motorista ao subir à bordo. Geralmente podemos reutilizar a passagem dentro de até 1 hora e meia. Aqui uma foto do aplicativo:

Como podemos ver, a passagem custa 22,50 coroas norueguesas, o que equivale aproximadamente a 7 reais. Compensa usar o aplicativo ou cartão de recarga, por que a passagem paga com dinheiro ao motorista custa 50 coroas, algo equivalente a cerca de 17 reais!

Eu estou muito satisfeita com o sistema de transporte de Trondheim. Claro que nem sempre ele funciona como deveria, mas de um modo geral ele é muito eficiente.

A Copa por aqui

A Copa por aqui

Faz 12 dias que a Copa do Mundo começou no Brasil e, como era de se esperar, os olhos da maioria dos noruegueses estão voltados para lá. Documentários, reportagens de TV, jornais e internet sobre o Brasil vêm sendo exibidos/publicados quase que diariamente. Gostei do que vi até agora, parece que os noruegueses estão aos poucos se desfazendo dos preconceitos e estereótipos e mostrando o país mais próximo de sua realidade. Uma crônica que gostei de ler foi esta, chamada «Dez Mentiras sobre o Brasil» e escrita por um norueguês que escreveu um livro sobre o país recém-lançado por aqui. Não vou traduzir a crônica inteira, mas posso listar as tais 10 mentiras sobre as quais o autor escreve:

1. O Brasil foi descoberto por Portugal.
2. O Rio é a capital do Brasil.
3. Todos amam futebol no Brasil.
4. Brasil é samba, futebol e carnaval.
5. As diferenças entre pobres e ricos aumentam no Brasil (não sei se concordo, por que não foi bem isso que eu observei durante a minha última longa estadia no país).
6. Não existe racismo no Brasil.
7. O Brasil é muito mais pacífico do que o resto da América do Sul.
8. Os brasileiros são alegres e sociáveis.
9. O motivo dos recentes protestos no Brasil é a Copa.
10. O Brasil pode ser resumido em 10 ítens.

Estou finalmente de férias e tenho pela frente um mês e meio para fazer o que eu quiser. Ontem fiz uma viagem relâmpago até Kristiansund com meu marido, que esteve lá à trabalho. Não tenho planos concretos de viagens e passeios, vamos ver o que aparece. Quero usar esse tempo para, entre outras coisas, organizar a casa, ler muito, estudar francês e fazer trabalhos manuais.

Semana passada participei da festa de encerramento dos alunos da décima série, que deixam a escola para iniciarem o ensino médio em agosto. A cerimônia foi muito bonita e emocionante, ao final muitos alunos vieram se despedir de mim com palavras muito bonitas de agradecimento e elogios.

Amanhã sai o resultado da votação dos membros do sindicato de professores sobre o acordo firmado há algumas semanas. Se a maioria votar por manter o acordo, vamos ter que aceitar o regime de horas obrigatórias no local de trabalho, mas somente se o diretor da escola nos oferecer escritórios mais apropriados.

Ainda falando em escola, na semana passada o príncipe da Noruega anunciou que vai matricular seus dois filhos em uma escola particular. Isto foi recebido como um escândalo, pois a família real norueguesa sempre manteve a tradição de levar um estilo de vida o mais parecido possível com o de um norueguês comum. Escolas particulares são raras por aqui e para abrir uma é necessário cumprir muitas exigências. Isto para evitar que as diferenças sociais entre os cidadãos aumentem por causa do poder aquisitivo. Ontem escutei no rádio sobre uma vez em que o antigo primeiro ministro da Noruega visitou um chalé nas montanhas administrado por uma associação de turistas noruegueses. Como ele chegou de surpresa sem reservar um leito, não houve outra solução: ele acabou tendo que dormir no chão. Ou seja, aquela mentalidade do «Você sabe com quem está falando?», não surte efeito por aqui. E isso é bom, na minha opinião.

Série comida na Noruega episódio 1

Série comida na Noruega episódio 1

Ao passar meses no Brasil e conversar com muitos amigos, respondemos aos mais variados tipos de perguntas sobre a Noruega. Algumas perguntas muito recorrentes eram relacionadas à alimentação. Percebi então que havia dado pouca atenção à comida que se come no dia-a-dia aqui no blog. Por isso resolvi iniciar uma série de postagens sobre comida na Noruega. O primeiro episódio é: o café-da-manhã.

Cortei definitivamente o pão da minha alimentação, pelo menos o pão tradicional. De vez em quando como pão integral e muito pouco. Padarias que abrem de madrugada e vendem pão quente à toda hora são praticamente inexistentes por essas bandas. A maior parte da população compra pão no supermercado, que é produzido com muitas horas de antecedência. Eu como o knekkebrød de segunda à sexta, no mínimo. Uma possível tradução é pão quebradiço. Ele parece mais uma bolacha salgada para nós brasileiros do que um pão:

O meu knekkebrød favorito é 67% integral e tem 24% de fibras
O knekkebrød favorito do meu marido é 100% integral e contém 15% de fibras 

Knekkebrød  fora da embalagem

Típicos frios e produtos para passar no pão aqui são: presunto cozido (kokt skinke), presunto curado (spekeskinke), salame, patê de fígado (leverpostei) queijo branco (hvitost), queijo marrom (brunost – este queijo merece uma postagem especial em outra ocasião), Nugatti, Nutella, Hapå (produtos à base de chocolate e/ou nozes), geleia (syltetøy) de morango (jordbær), framboesa (bringebær), mirtilo (blåbær) e um tipo de amora diferente da brasileira (tyttebær). Desde que voltei do Brasil eu passei a comer uma iguaria que talvez choque alguns:

Apresento-lhes o makrell i tomat em sua embalagem…
… e após aberto

A embalgem revela o que é: peixe! Trata-se de um parente próximo da cavalinha que se encontra no Brasil, segundo as minhas pesquisas. O peixe é limpo e curtido em molho de tomate. Eu nunca pensei que um dia acabaria comendo peixe no café-da-manhã, mas hoje em dia não vivo sem. Na embalagem está escrito que Uma fatia de pão com o makrell cobre a dose diária recomendada de Ômega 3. Esta substância é recomendada por que, entre outros benefícios, ajuda a reduzir os níveis de colesterol ruim do corpo. Eu como uma fatia de knekkebrød com o makrell por dia no café:

À esquerda na foto vemos o pão com peixe e à direita, knekkebrød com queijo cottage e geleia de framboesa. Geralmente eu como as duas fatias com peixe, mas quando tenho vontade de comer algo mais doce eu vou de geleia. O peixe vem em uma lata, e para guardar a lata na geladeira, encontrei uma tampa de plástico extremamente prática:

Para beber, água ou groselha. Somente quando chego ao trabalho, cerca de 2 horas depois, eu tomo uma merecida xícara de café preto. Ainda não me acostumei ao café amargo, embora saiba que preciso cortar o adoçante.

No próximo episódio, o almoço.

Cem funcionários que não fazem o serviço de um

Cem funcionários que não fazem o serviço de um

Ontem, estivemos em uma loja de material de construção grande aqui em Santos. Compramos algumas ferramentas, uns parafusos e eu comprei um varal de chão pequeno para o apartamento. Este varal não tinha preço marcado nem na mercadoria nem na prateleira (isso acontece direto nas lojas e mercados daqui), mas eu havia visto outro varal maior por 45 reais e pensei: bom, se o varal maior está 45, esse menor dever estar mais barato. Ao final das compras, ainda encontramos um suporte para pendurar toalha em um saldão da loja.

Aí fomos passar no caixa…

A moça do caixa, ao ver o tal suporte que achamos no saldão, disse que teríamos que ter falado com um vendedor para tirar o pedido (como que iríamos saber uma coisa dessas?), pois ela não poderia passar esse suporte no caixa dela por que ele estava com o preço remarcado…Tivemos que retirar tudo da esteira do caixa, botar de volta no carrinho e levar até um atendente que escaneou produto por produto no leitor óptico para que, então pudéssemos pagar no caixa.

Ao escanear o varal de chão, constatei que seu preço era 60 reais! Eu disse ao vendedor que havia outro varal maior por 45. Ele simplesmente respondeu: «Ah, isso acontece muito.» Bom, disse então que iria trocar esse de 60 reais por o de 45. O vendedor ficou olhando para nós (esperávamos que ele fosse se oferecer para ir buscar o outro varal), mas não. O Morten foi lá trocá-lo. O vendedor estava dando sinais de impaciência. Quando o Morten voltou com o suposto varal de 45 reais e o vendedor passou o produto no leitor óptico, a surpresa: 70 reais! Eu disse ao vendedor que este varal estava anunciado por 45 na prateleira. Ele olhou para nós como se estivesse dizendo: «Vocês são uns otários» e ficou imóvel. Não se deu ao trabalho de conferir na prateleira, nada. Diante da indiferença dele, disse que não ia levar varal nenhum (voltando para casa achamos o varal em outro lugar por um preço bom).

Ao chegar ao caixa, pensei que a moça iria somente receber o pagamento, pois o outro vendedor já havia escaneado todos os produtos. Mas, NÃÃÃÃOOO!!! Ela escaneou tudo de novo! O Morten me perguntou por que ela estava fazendo aquilo de novo, e eu simplesmente não soube responder.

Saímos da loja irritados por concluir que a loja tinha muitos funcionários, mas que nenhum fazia seu trabalho com competência. Quando vou a supermercados, vejo dezenas de funcionários com o uniforme do estabelecimento que andam para lá e para cá, SEMPRE fazendo fofoca de algum outro funcionário que não está por perto. E eu constatei isso várias vezes e em várias lojas até escrever aqui, não foi uma vez só não. Uma vez, ao entrar em uma loja da Vivo para perguntar sobre internet móvel, a funcionária nos respondeu sem olhar para nós, pois ela estava muito ocupada mexendo no seu celular.

Aí, não tem como não comparar com a Noruega. Lá, há pouquíssimos funcionários em uma loja, mas eles fazem tudo: trabalham no caixa, são estoquistas, fazem a limpeza, escrevem os cartazes de preços, atendem ao público, etc. Quando se entra em uma Casas Bahia aqui, sempre vem um funcionário querer te atender. Quando se quer comprar uma televisão na Noruega, tem que pegar uma senha e esperar o coitado do funcionário atender outros clientes para então poder vir te dar atenção. No meus primeiros meses de Noruega, ficava muito irritada com esta longa espera, mas sempre que fui atendida por um funcionário, recebi um atendimento exemplar. Ele sabia tudo sobre cada produto da loja, aconselhava (até a procurar outra loja concorrente caso ele não tivesse o que procurávamos!) e nunca demonstrava que estava querendo te enganar e vender acima de tudo.

Para terminar, tenho que contar como que a gente pode pagar pelas compras na IKEA, rede de lojas de móveis e utilidades domésticas originária da Suécia com filiais em quase todo o mundo (por que não ainda no Brasil???): Você tem a opção de passar as suas próprias compras no caixa. Escaneia produto por produto com o leitor, escolhe quantas sacolas vai querer (lá se paga pelas sacolas), escolhe a forma de pagamento e passa o cartão, digita a senha e pega seu recibo. Tem uma funcionária ao fundo supervisionando tudo, mas ela só se aproxima se você tiver alguma dúvida.

Embora as lojas aqui no Brasil contem com muitos funcionários, raramente a gente recebe um bom atendimento. Geralmente é o contrário, somos até maltratados. E isso é uma pena. Ah, e a Copa do Mundo vem aí…

O Cisco e a trave

O Cisco e a trave

Quem era eu para falar mal da UDI norueguesa…

Desde que cheguei na Noruega e comecei meu complicado relacionamento com a UDI, o departamento de imigração deles, escrevi várias postagens reclamando muito do atendimento, da demora e do sistema que aparentemente não funcionava. Hoje, já com o visto permanente, não preciso mais enfrentar as filas e preencher a infinita pilha de formulários para garantir que a minha estadia no país esteja sempre na legalidade. E o atendimento melhorou muito no últimos anos.

Até que um dia, a situação se inverteu e foi o meu marido quem teve que pedir visto para ficar no Brasil mais de três meses (período máximo para estrangeiros residirem no país sem visto) junto à Polícia Federal.

Mordi a língua.

A bagunça já começou na Noruega, quando eu escrevi um e-mail para a embaixada perguntando sobre a necessidade de ele pedir visto, já que iríamos ficar no Brasil mais de três meses. A resposta que veio é que sim, ele teria que pedir visto temporário. Aqui, na polícia federal, me informaram que na verdade ele poderia, sim, ficar aqui mais de três meses sem visto se tivesse solicitado uma prorrogação de sua estadia.

Mas, sem ter recebido essa informação da embaixada (que eu tampouco achei no site da PF), lá fomos nós dar entrada na papelada. Preenchimento de formulários, pagamento de taxas nada razoáveis. Poucos dias depois, uma funcionária ligou da embaixada para meu marido falando um norueguês incompreensível e um inglês mais incompreensível ainda (não sabia que era tão fácil assim arrumar emprego em embaixada) dizendo que não havia recebido os pagamentos necessários. Depois de muitos telefonemas, até que enfim ela encontrou os pagamentos. Algumas semanas depois, avisaram que o visto havia sido concedido e que teríamos que comparecer à embaixada com o passaporte dele. Eu pensei que a etiqueta do visto seria colada no passaporte na hora, mas qual não foi a minha surpresa ao saber que não, o passaporte teria que ficar com eles entre duas e quatro semanas até a etiqueta ser colada. Mais irritação e ainda por cima o medo de o visto não ser colado à tempo da nossa viagem à Espanha, uma semana antes da viagem ao Brasil. Felizmente, o visto ficou pronto à tempo. Nos disseram que era obrigatório comparecer à PF em São Paulo no máximo 30 dias após chegar ao Brasil. Tudo bem, pensei, deve ser uma visitinha de praxe, só por formalidade.

Tá bom…

Assim que aterrissamos em Guarulhos, cerca de 6hs da manhã, tentamos resolver isso, indo ao escritório da PF que tem lá. Meu marido perguntou se o escritório estava aberto e responderam, com cara de espanto total: «Não, estamos fechados! Talvez vamos abrir às 8hs…». Não quisemos esperar, então fomos à sede da PF alguns dias depois, ainda achando que essa visita seria só uma formalidade. Chegando lá, recebemos a infeliz notícia de que teríamos que reunir mais documentos, pagar mais taxas e preencher mais formulários. A embaixada não havia dado visto temporário ao meu marido, mas sim, um visto permanente! Ele teria que tirar RNE, o RG do estrangeiro! Eu expliquei que esse não era o visto que havíamos pedido, pois vamos ficar aqui somente 5 meses. Eles responderam que agora que demos entrada na papelada, ele teria que concluir o processo, caso contrário poderia ter problemas com a imigração em futuras viagens ao Brasil. Lá fomos nós fazer tudo de novo.

Ontem, voltamos à PF com a documentação. Enquanto conferiam a documentação, as atendentes ficavam brincando entre si o tempo todo, conversando por SMS com seus respectivos namorados e bocejando. Estava tudo certo.  Meu marido teve que recolher as suas impressões digitais (na Noruega isso não existe, só para pessoas que são presas), mas aí veio outra bomba: a RNE dele não ficaria pronta antes de, no mínimo, 6 meses! Em 6 meses já estaremos de volta à Noruega! Expliquei isso para as atendentes, perguntei se não teria como elas apressarem o processo, mas nada feito. Uma delas teve até a cara de pau de dizer:
«Vocês têm que vir aqui retirar o RNE, nem que seja para viajar para cá somente por um dia» . Aham, como se viajar da Noruega para o Brasil para ficar um dia fosse muito fácil, para não dizer barato…

Disseram ainda que, se meu marido sair do Brasil e voltar com um protocolo vencido, corre o risco de não poder entrar. A solução vai ser fazer uma procuração (mais despesas com cartório), para que alguém da minha família retire o RNE no nome dele e nos envie pelo correio. Mais uma: para que seu RNE tenha validade, ele terá que vir ao Brasil em intervalos de no máximo 2 anos para que não o perca.

Conclusão: vale mais a pena entrar sem visto e tentar driblar a lei do que fazer tudo de modo legal. Nunca mais vou reclamar da UDI da Noruega.

Lugar ao gelo garantido por escrito

Lugar ao gelo garantido por escrito

Ontem, o diretor da escola me chamou para assinar meu contrato de trabalho. Li atenciosamente o contrato e lá estava a palavrinha mágica: «fast stilling». Emprego efetivo. Ninguém tirará o emprego de mim, a não ser que eu mesma peça demissão ou faça algo muito, mas muito sério. Nada mais de nervosismo ao final de cada ano letivo, pensando «será que eles vão renovar o contrato para o ano que vem?» e «e se aparecer uma pessoa melhor qualificada e eles a escolherem?» Vou trabalhar 80 %, ou seja, 24, 6 horas semanais. Mas, primeiro vou tirar férias. Longas e merecidas, esquecer trabalho e faculdade por um bom tempo. Ainda não recebi minha cópia do contrato, só vou acreditar completamente quando o tiver em minhas mãos.

Hoje foi o dugnad de primavera aqui no prédio onde moro. Dugnad significa mutirão e todos os moradores (pelo menos no papel) têm que comparecer e trabalhar nas áreas comuns do prédio. Eu e o meu marido trabalhamos no jardim, rastelamos as folhas secas no terraço na parte anterior do prédio, podamos os arbustos e as árvores, lavamos o corredor entre a entrada principal e o terraço, enfim, acho que contribuímos mais que o suficiente. Somente dois moradores não deram sinal de vida, mas, felizmente, aqui é difícil alguém fugir de sua responsabilidade, eles terão que trabalhar depois. Se alguém não paga o condomínio do apartamento, o apartamento é vendido para pagar a dívida e o caloteiro tem que se mudar. Quando eu morei em prédio no Brasil, muita gente não pagava o condomínio e ficava impune (mas, carro zero, ah, isso eles podiam pagar…).

Resultado do nosso trabalho no dugnad de primavera

 

O outro lado da moeda

O outro lado da moeda

Há algumas semanas, publiquei uma postagem com um artigo escrito por uma americana sobre a falta de simpatia dos noruegueses. E hoje, encontrei um artigo (na verdade, uma postagem em um blog) de um francês contando suas impressões sobre o Brasil. Aqui está o link para a postagem:

Curiosidades brasileiras

Não publicarei o texto aqui por que é muito longo e não pedi permissão ao autor. 
Achei interessante ele começar o texto por dizer que as impressões podem ser um pouco exageradas.
Concordei plenamente com as seguintes impressões: 
1 Sinto tanto a falta de filas na Noruega!
3 Faço isso aqui quando como hamburguer, não consigo deixar de usar guardanapo!
6
9 Passei por essa experiência em uma churrascaria, realmente irritante
13 Sou neta de japoneses por parte de mãe, e sofri muito com bullying por ser descendente de japoneses. Horrível como as pessoas generalizavam e atacavam os asiáticos! Espero que isso não aconteça hoje em dia!
15, 16, 17
19 Adoro assistir a minisséries e algumas novelas antigas – tenho o DVD da Escrava Isaura, mas essas novelas atuais não consigo mais assistir, não!
21 E mesmo assim, com tanta comida, há gente passando fome
22 Quem reclama do café brasileiro ainda não experimentou o norueguês!
23, 24, 25
28 Aqui na Noruega ninguém nunca ouviu falar em buffet adulto, muito menos infantil!
42 Tive que vir à Noruega fazer faculdade para conhecer a cultura latino-americana. Que vergonha!
46 Na Noruega, as coisas funcionam um pouco melhor, mas ainda longe da perfeição.
47, 50, 54, 56, 57

Quanto às outras impressões, há algumas com as quais concordo parcialmente e outras que, na minha opinião, são estereótipos. Mas, na verdade, todas as impressões são esterótipos, e temos que sempre ter cuidado com eles.

Noruegueses arrogantes?

Noruegueses arrogantes?

Artigo publicado no jornal norueguês Bergens Tidende, onde uma menina norte-americana de 16 anos reflete sobre a falta de simpatia dos noruegueses para com estranhos. Achei tão interessante, que quis traduzir.

Artigo original aqui: http://blogg.bt.no/btbatt/2013/03/14/overlegne-nordmenn/

Eu me mudei dos EUA para a Noruega há quatro anos. Não conhecia nenhum norueguês, não sabia falar norueguês e não conhecia a cultura norueguesa. Depois de muito tempo, internato, muitas aulas de norueguês – aprendi finalmente o idioma. Daí ficou mais fácil para mim fazer contato com outros jovens noruegueses e eu estava ansiosa por isso. Eu queria fazer amizades e queria poder conversar com outras pessoas na sua língua nativa. 

Eu vejo a mim mesma como uma pessoa bem simpática. Eu digo «Oi!» para todos – para a pessoa que senta ao meu lado no ônibus, amigos de amigos, professores, a pessoa na fila do caixa – todos. Eu faço isso simplesmente porque é um hábito ser simpática. Eu fico contente quando um estranho me diz «Oi», ou simplesmente sorri para mim. Isso é comum nos EUA, pelo menos. Algo que eu percebo na Noruega, é que noruegueses não são simpáticos. Eles se importam quase somente consigo mesmos ou com seu «povo». Claro que isso não se aplica a todos, mas a muitos. 

Um dia quando eu estava indo para a escola, eu escorreguei e caí no gelo e todos os meus livros caíram da minha mochila, que estava aberta. Eu fiquei ensopada. Doeu muito quando eu caí no gelo, e foi difícil levantar. Cinco vizinhos passaram por mim. Quantos me ajudaram? Nenhum. Eles olhavam para mim e passavam direto. Um homem disse «É, está bem escorregadio!», e passou direto. O que é isso? Não se pode ajudar outras pessoas se você não as conhece? É assim que funciona?

Meus amigos acham que eu sou meio esquisita às vezes, já que eu sou simpática e falo com todas as pessoas que encontro. Nós costumamos ir ao mercado no intervalo das aulas e, quando vamos pagar, eu quase sempre converso com o (a) funcionário (a) do caixa. «Oi, tudo bem?». «Hoje tive uma prova difícil, eu fiquei muito nervosa!», «Você teve um bom dia?», «Estou comprando tudo isso de bolo porque vou ter visitas no meu aniversário amanhã, entende?» –  são coisas típicas que eu posso dizer para o caixa. É completamente normal para mim! Meus amigos ficam muito encabulados e me pedem para parar com isso. Eu simplesmente gosto de falar com as pessoas, é tão errado assim? Viaje para os EUA! Vá ao mercado, vá fazer uma corrida, sente em um ônibus; eu sou capaz de garantir que pelo menos uma pessoa vem falar com você e perguntar como vai. Eu acho isso extremamente amável. Receber um sorriso de um estranho pode fazer o seu dia melhor. Mas, pensando bem – viaje para o exterior, nem precisa ser somente os EUA. Tenho quase certeza que há pessoas muito mais simpáticas que na Noruega.

Uma coisa que eu me pergunto é: Como que os noruegueses fazem amizades? Se eu estou esperando um ônibus com um amigo, e um amigo desse amigo chega e diz «Oi!», eu digo «Oi!» e cumprimento essa pessoa, simplesmente porque eu gosto de conhecer pessoas novas e gosto de ser educada! Eu lembro um dia depois da escola, eu fui para o ponto de ônibus sozinha, então encontrei muitos dos meus amigos, mas havia uma menina que eu não conhecia. Eu estendi minha mão para me apresentar e disse o meu nome, e ela me olhou como se eu fosse uma idiota! Ela apertou minha mão e disse como se chamava,  mas durante todo o tempo que eu fiquei com aquela turma ela me olhava como se eu tivesse acabado de assassinar toda a família dela ou algo parecido. É totalmente ridículo.

PORÉM… Há um porém aqui. Quando os noruegueses ingerem bebidas alcoólicas – isso vale para os jovens e os mais adultos – é completamente diferente. É exatamente aí que todos ficam simpáticos, fazem barulho, ficam amáveis, etc. É assim que tem que ser? É preciso encher a cara para se divertir, fazer festa, para fazer amizades e ser simpático?

Eu noto que eu fico irritada quando eu sorrio para alguém que passa, e eles olham para mim como se eu f2osse maluca. Eu sorrio para todos! Amigos, familiares, conhecidos, estranhos. Qual é o problema em sorrir de volta? Até o pessoal que passa no corredor da escola tem problemas para tirar o olhar do chão e sorrir ou dizer oi OU QUALQUER OUTRA COISA. O que será de mim em 5-10 anos? Será que eu vou ficar como a maioria dos noruegueses? Antipática e mal-educada? Eu não tenho a mínima intenção de destratar os noruegueses, e não acho que todos os noruegueses sejam antipáticos. Assim que eu consigo fazer contato com alguém eles geralmente se tornam bem simpáticos! Mas, o que aconteceu com as boas maneiras do dia a dia?

Emily Mason 

Eu também não acho que todos os noruegueses sejam antipáticos, mas concordo com muitas coisas que Emily escreve. Tenho até alguns casos para relatar:
Uma vez, na faculdade, o professor pediu para que nós discutíssemos uma pergunta com a pessoa que estava sentada ao nosso lado durante alguns minutos. A menina do meu lado virou as costas para mim e começou a conversar com a pessoa ao seu lado, sendo que ela viu que não havia ninguém mais ao meu lado. Sorrir para estranhos aqui pode ser rapidamente interpretado como flerte, não como simpatia.
Em junho do ano passado, quando levei um tombo e tive uma luxação no tornozelo voltando da confraternização de verão (eu não tinha bebido nada de álcool, foi um acidente mesmo), nenhum dos meus colegas de trabalho pareceu ter me levado muito a sério. Um senhor que estava esperando o bonde deu risada. Durante os quinze minutos que passamos no bonde de volta para a cidade, eu quase não aguentando de dor e com lágrimas nos olhos (os colegas rindo e conversando ao meu lado), só aí eles entenderam que eu tinha me acidentado com um certo grau de gravidade. O senhor que havia dado risada desceu do bonde e falou «Puxa, parece que você se machucou de verdade, hein!». 
Depois de quase sete anos morando aqui, percebo que eu também estou perdendo essa simpatia do dia a dia, já que, como Emily disse, as pessoas nos olham como se a gente fosse maluca se a fazemos algo que foge aos costumes considerados normais.
Alimentação saudável na Noruega

Alimentação saudável na Noruega

Estar de férias é ótimo por que dá tempo de navegar na internet e assistir à reportagens e documentários que tratam de outros temas além de assuntos relacionados à faculdade. Ontem, encontrei o documentário Muito além do peso no blog Pimenta no Reino. Fiquei chocada em primeiro lugar com a atual realidade das crianças brasileiras, que só comem comida industrializada! Não moro no Brasil há mais de seis anos, não tenho filhos nem crianças na minha família mais próxima, por isso não estava a par da situação. Em segundo lugar, fiquei chocada com o fato de crianças não saberem como é uma batata, um mamão, uma beterraba, um chuchu! Não vou mentir, quando eu era criança eu não gostava de verduras e legumes, mas pelo menos ia à feira com meus pais semanalmente e sabia como eram os legumes, frutas e verduras. Minha mãe fazia toda a comida em casa, sucos eram só naturais (de maracujá e de goiaba, ai que vontade!), ir a restaurantes (pouquíssimas vezes ao ano) era só em dias muito especiais. Em terceiro lugar, fiquei chocada ao saber que algumas crianças que se atrevem (!) a levar frutas de lanche para a escola têm que se trancar no banheiro para poder comê-las sem serem rotuladas como estranhas. Em quarto lugar, fiquei chocada ao ouvir uma criança dizer que aula de educação física era teórica e durava somente 15 minutos! Posso continuar com a lista de coisas chocantes que ouvi no documentário, mas paro por aqui. Na Noruega também existem crianças e adultos obesos, mas, eu não creio que as pessoas estejam tão acomodadas com a situação como no Brasil. Pelo menos essa é a impressão que eu tenho ao ver o documentário.
Trabalho diretamente com crianças e adolescentes aqui na Noruega, e o que eu observo no meu ambiente de trabalho com relação à alimentação saudável e prática de esportes é que:
1. A escola (pública) dá frutas aos alunos gratuitamente todo dia, às 10 horas, depois da primeira aula. Os alunos entram na classe depois do recreio já pedindo as frutas, e quando eu chego com a cesta, eles avançam. As frutas mais comuns que vêm na cesta são banana, maçã, pera, laranja, mexerica, kiwi, ameixa e frequentemente eles mandam também cenourinhas. Como sempre há sobras, eu e os outros professores acabamos ganhando frutas diariamente, então eu como no mínimo uma ou duas frutas por dia, grátis.
2. A maioria das escolas públicas norueguesas não fornece merenda gratuita, então os alunos trazem seu próprio lanche. Eu fico com eles na hora do lanche duas vezes por semana, e observo que nenhum, absolutamente nenhum aluno leva lanche industrializado para a escola. O que mais se vê nas lancheiras são fatias de pão integral com frios (presunto, queijo branco, queijo marrom, salame, patê de fígado). Algumas meninas levam saladas que elas mesmo fazem. Os alunos que desejam podem pedir um frasco (200ml) de leite integral, ou leite achocolatado ou suco de laranja ou God Morgen, iogurte de baunilha com cereais) diariamente. Os pais têm que pagar. Não são muitos os que pedem.
3. O consumo de refrigerante, chocolate e outras guloseimas não é popular entre os alunos nos dias normais de aula. Quando há provas que duram o dia inteiro, eles pedem permissão aos professores para trazer essas iguarias.
4. Os alunos da nona série têm aulas de economia doméstica toda semana durante 2 horas e meia. Lá, eles aprendem sobre alimentação saudável, e fazem comida em grupos.
5. Há aulas de educação física duas vezes por semana, 60 minutos cada vez. Além disso, há pelo menos quatro dias ao ano em que os alunos fazem passeios de un dia inteiro para esquiar, acampar, nadar, etc. A maioria dos alunos participa de algum tipo de agremiação esportiva e treinam em seu tempo livre. Tenho alunos que jogam futebol, outros jogam handebol, outros jogam badminton, outros esquiam e tenho até um aluno que é ginasta olímpico.
6. Há um lema bastante difundido por aqui: Fem om dagen (cinco por dia). Quer dizer que todos devem comer cinco porções de frutas, legumes e verduras por dia. Peixe deve ser consumido ao menos duas vezes por semana (ponto para mim, ontem fiz sopa de peixe pro jantar).
7. É expressamente proibido fazer comerciais de TV dirigidos a crianças. Eu nunca vejo comercial de brinquedo, por exemplo. McDonald’s e Burger King fazem comerciais, mas sem citar brinquedinhos que vêm com lanches ou algo do tipo. Também é proibido fazer comercial de bebidas alcóolicas e com apelação sexual (ou seja, as cervejas do Brasil estariam falidas aqui). Agora, um coisa que eu detesto aqui são os comerciais de cassinos e jogos de azar pela internet (deveriam ser proibidos também!)
Mudança (não só de casa) e um acidente chato

Mudança (não só de casa) e um acidente chato

Domingo passado foi o dia da nossa mudança para o apartamento novo. Meus sogros e meus dois cunhados ajudaram e mesmo assim a mudança demorou o dia todo. Morávamos no quinto andar de um prédio sem elevador e carregar caixotes e móveis não foi nada fácil. Eu me senti um pouco inútil por ter que ficar no apartamento novo abrindo as caixas e tentando arrumar lugar para nossas coisas, mas se eu não tivesse feito isso, creio que o apartamento ficaria lotado de caixas e nós não teríamos lugar para andar. Hoje, quase uma semana depois a casa ainda está bagunçada, mas aos poucos vamos organizando tudo.
Na sexta antes da mudança recebi um telefonema do diretor da escola onde trabalho. Ele me ligou para dizer que eu seria a nova kontaktlærer de uma classe da nona série, substituindo um professor que vai se aposentar. Kontaklærer é um(a) professor(a) que tem funções extras além de lecionar. Uma delas é manter contato com os pais dos alunos. Eu fiquei muito feliz com a notícia, mas ao mesmo tempo entrei em pânico, por que andei observando o quanto de trabalho um kontaktlærer tem. Mas, vou encarar o desafio e tentar fazer o meu melhor. O ano letivo que vem vai ser muito corrido, com essa mudança no trabalho e o último ano do curso de pedagogia. Não vou conseguir relaxar totalmente nessas férias de verão pensando no que vem por aí.
Ontem foi a confraternização de verão da escola. O local da festa era secreto, até subirmos em um bondinho antigo e entendemos que iríamos a um restaurante chamado Lian. Depois do jantar fomos a um lago nas redondezas e os organizadores da festa tinham preparado uma espécie de competição. Formamos times e tínhamos que ir a diferentes postos onde havia tarefas a serem cumpridas. Em uma das tarefas, um membro do time tinha que beber uma garrafa de cerveja de 350 ml no tempo mais curto possível. Na outra, o membro do time tinha que tentar beber cinco doses de uma vodca mais fraca que a normal, mas ainda sim com alto teor alcoólico. Não fui eu quem executou essas tarefas por que não tolero tanto álcool assim, mas fiquei chocada com esse tipo de tarefa em uma festa para professores bem crescidinhos. Tudo bem que essa é a cultura norueguesa e eu tenho que aceitar, mas, que é desconfortável ver os colegas de trabalho mudarem o comportamento por efeito do álcool, isso é.
Na hora de ir embora e pegar o bondinho de volta, pisei em falso e levei um tombo ao descer o morro entre o restaurante e a estação. Não havia bebido uma gota de álcool e estava de sapato baixo. Puro acidente. Torci meu pé esquerdo e quase que não chego em casa de tanta dor. Felizmente uma colega me ofereceu carona até a porta de casa. Hoje estou de molho em casa quando deveria estar no apartamento do qual mudamos pintando as paredes antes de entregar as chaves para a imobiliária. É a primeira vez que sofro uma torção assim, e percebo como é horrível ter que ficar imóvel sem poder sair. Espero que eu melhore até segunda-feira, senão vou ter que faltar ao trabalho. Ainda bem que haverá aulas somente até quinta e depois vou entrar de férias.