Kategori: Família

Após várias tentativas, consegui vir aqui para contar

Após várias tentativas, consegui vir aqui para contar

Meu pai recebeu o diagnóstico de câncer na bexiga no final de novembro de 2014. Eu viajei para o Brasil na primeira semana de dezembro e ele foi internado logo em seguida. Passei o mês de dezembro e janeiro no Brasil, revezando com meus irmãos para ficar com meu pai no hospital. No Brasil é obrigatória a presença de um acompanhante para idosos 24 horas por dia. A primeira cirurgia foi mal sucedida, e ele sofreu um AVC que, apesar de controlado, comprometeu o lado direito do cérebro e ele perdeu a capacidade da fala. Ele saiu da UTI dia 24 de dezembro, e eu passei o Natal e o Ano Novo no hospital com ele.

Foi muito triste não poder mais conversar com ele, apesar de tentarmos o tempo todo.

Os médicos deram alta para ele por uma semana no final de janeiro. Ele comemorou seu aniversário conosco em casa e eu  fiz o melhor que pude para cuidar dele. No começo de fevereiro tive que voltar para a Noruega, pois já havia tirado licença de quase dois meses. Ele foi operado novamente dia 2 de fevereiro e, apesar da cirurgia ter sido bem sucedida, ele foi mantido na UTI por causa do coração enfraquecido. Dia 25 de fevereiro ele descansou, após lutar bravamente. Voltei ao Brasil para me despedir. Pude ficar somente uma semana.

Apesar da tristeza causada pela ausência dele, fico feliz ao pensar que fiz o que pude, mesmo morando tão longe. Em 2011 ele veio conhecer a Noruega. Viajamos também para a Espanha, terra natal de sua mãe, minha avó. Foram três semanas maravilhosas, apesar de terem começado com a chegada em Oslo no mesmo dia dos ataques terroristas em Oslo.

Em 2013 eu e o Morten tiramos cinco meses de licença para morar no Brasil e ficar mais tempo com ele. Quando ele recebeu o diagnóstico, eu não hesitei em ir para o Brasil ficar com ele. Os dias de hospital me ensinaram tantas coisas. Infelizmente não tenho talento para contar tudo aqui. Logo após o falecimento dele, comecei a ler um livro por puro acaso. A autora é a norueguesa de Trondheim Anne B. Ragde. O livro chama-se «Jeg har et teppe i tusen farger» (Eu tenho um cobertor de mil cores). Nesse livro, Anne narra os dias que passou com sua mãe em um hospital e em dois asilos quando ela foi diagnosticada com câncer linfático e também episódios que mostram a coragem e força da mãe, que criou Anne e sua irmã como mãe solteira e vivendo na pobreza.

Os médicos, enfermeiras e enfermeiros do Hospital das Clínicas e do Instituto do Câncer foram maravilhosos com meu pai. Por causa da gravidade do seu caso, infelizmente diagnosticado tarde, ele conseguiu ser admitido rapidamente. Não é verdade que o sistema de saúde do Brasil só é ruim. Como acompanhantes, eu e meus irmãos recebíamos três refeições gratuitas por dia, sete dias por semana. Ao contar isso para o meu marido e sua família, eles não acreditaram. No Noruega não há lei que permita que acompanhantes fiquem direto com o paciente idoso, e nos casos em que isso é permitido, oferecer refeições de graça a acompanhantes está absolutamente fora de cogitação.

Meus empregadores não descontaram um centavo do meu salário nos dois meses em que estive no Brasil cuidando do meu pai. Tudo o que tive de fazer foi enviar uma cópia do laudo médico. Não precisei me preocupar com tradução, o sistema daqui ia providenciar.

Meu marido me apoiou em todos os momentos, até quando eu tive que abandoná-lo na Noruega às vésperas do Natal e ele teve que morar sozinho durante quase dois meses sem saber se eu receberia meu salário e sem saber se conseguiríamos pagar todas as contas.

Será triste voltar ao Brasil em junho e saber que não encontrarei mais meu pai.

E de repente, é outono

E de repente, é outono

Desde minha última postagem muita coisa aconteceu. Não senti a necessidade de escrever todos os fatos à medida que foram acontecendo por que também quis tirar férias do blog. Mas, desde o meio de agosto voltei ao trabalho. No final de julho, recebemos a visita do meu irmão, que ajudou o Morten a reformar nosso depósito no porão (os apartamentos costumam ter uma espécie de quartinho ou depósito no porão para guardar coisas, muito útil). Essa reforma durou somente três dias. Depois, fomos viajar de carro até a Suécia e Oslo. O tempo não estava muito bom, mas nos divertimos mesmo assim. Dia 12 de agosto ele voltou ao Brasil e logo em seguida eu e o Morten voltamos ao trabalho. 
No momento, tenho uma classe de 24 alunos e sou responsável por manter contato com os pais de 12 desses alunos. Felizmente a professora que divide o comando da classe comigo é muito experiente (foi professora do meu marido e dos irmãos dele). Dou aulas de inglês, espanhol e ciências sociais. Está sendo muito bom dar aulas de história norueguesa e de educação moral e cívica. Logo vou iniciar o período de estágio na mesma escola em que trabalho. Vou estagiar 30 horas com uma professora de inglês e completar minha cota de 100 horas de estágio. Mal posso esperar para cumprir essa exigência no curso de pedagogia. É a única exigência que não depende somente do meu esforço, pois necessito de um mentor para o estágio.
Semana que vem teremos aulas no curso e vamos iniciar um projeto de pesquisa e desenvolvimento de métodos de ensino, sei que vem muito trabalho por aí. Até junho de 2013 meus dias se basearão em muita leitura, muita escrita e muita hora extra nos finais de semana. Ontem, o diretor da escola onde trabalho veio conversar comigo para saber como estou lidando com a nova responsabilidade de ser contato de classe e eu respondi que estou sempre com coisas para fazer, mas sinto que tenho controle de tudo. Ele ofereceu apoio e ajuda extra caso eu perceba que estou sem tempo para estudar e trabalhar. É incrível o apoio que recebemos aqui quando estudamos e trabalhamos, estão sempre perguntando como estou indo e elogiam o fato de seu ter abraçado as duas coisas ao mesmo tempo. A maioria estuda primeiro e recebe um salário do governo que eles pagam de volta quando se formam. Só depois de formados procuram emprego.
Semana passada, entreguei um trabalho de pedagogia no qual abordei a questão de como as minorias étnicas são recebidas na escola norueguesa. Estou muito contente com o que escrevi, agora estou aguardando os comentários da professora. Tenho mais dois trabalhos para entregar, um de inglês e um de espanhol. Eu e o Morten já planejamos que vamos ao Brasil assim que eu entrar de férias no trabalho e terminar o curso de pedagogia em junho do ano que vem. Serei então professora recém-formada e, se tudo correr bem, terei uma proposta de trabalho efetivo. Minhas metas estarão cumpridas e então poderei comemorar muito e descansar depois do ano atribulado que terei passado. Eu considerei a possibilidade de ir em dezembro para o Natal, mas as aulas recomeçam dia 2 de janeiro, então eu não poderia ficar lá mais que duas semanas. As passagens são tão caras que não compensa ir para ficar somente quinze dias. Prefiro então ir nas férias de verão daqui e ficar 5 semanas.
O tempo que decepcionou no verão está agradando agora. Dias ensolarados e às vezes até calor. Os dias, no entanto estão amanhecendo mais tarde e escurecendo mais cedo, sinalizando a vinda do mørketid, ou época negra. As árvores estão com as folhagens amarelas e alaranjadas. Está na hora de recomeçar com a ingestão diária do óleo de fígado de bacalhau para suprir a necessidade de vitamina D no corpo. Compramos o estoque de lenha para o inverno e estreamos nosso forno à lenha (que não se usa para cozinhar, somente para aquecer a casa). É o outono que chegou.
Férias de verão 2011 – Uma passadinha em Trondheim

Férias de verão 2011 – Uma passadinha em Trondheim

Segunda parte: São Paulo – Frankfurt – Oslo – Trondheim – 21 e 22 de julho de 2011

A viagem de São Paulo a Frankfurt transcorreu tranquilamente. Tenho que elogiar muito o atendimento da TAM, bem como o avião, muito moderno e confortável (qualidade difícil de achar quando viajamos na classe lata de sardinha/econômica). Escolhi lugares em uma fileira mais ao fundo, onde havia somente duas poltronas. Assim, eu e meu pai viajamos juntos sem ninguém ao nosso lado. Em Frankfurt aguardamos algumas horas até pegar o avião a Oslo (mal sabíamos que mais ou menos naquele momento o primeiro ataque terrorista acontecia no centro de Oslo). Ao chegar em Oslo tivemos que pegar nossas malas na esteira e despachá-las novamente. Acabamos não tendo tempo de passar no Duty Free, onde eu iria comprar umas coisinhas encomendadas pelo meu marido. Quase embarcando no voo para Trondheim liguei para o Morten para avisá-lo que infelizmente não havia passado no Duty Free. Ele, aliviadíssimo por eu ter finalmente telefonado e dito que estava a caminho de Trondheim me conta sobre os acontecimentos das últimas horas. O fato de eu não ter passado no Duty Free era insignificante. O importante é que eu e meu pai estávamos quase chegando em casa.

Trondheim nos recebeu com frio e chuva. Pegamos o ônibus do aeroporto de Værnes até minha casa. Uma viagem de 30 minutos e Morten nos esperou no ponto portando uma bandeira do Brasil. Chegamos bem, jantamos e fomos dormir. Meu pai não viu quase nada de Trondheim nesta noite. No dia seguinte, partimos para a Espanha.

A vida felizmente não é só trabalho e estudo

A vida felizmente não é só trabalho e estudo

Terminados meus exames finais, minha agenda cultural ficou bastante cheia. Quarta-feira passada, dia 8, eu, marido e sogros fomos ao teatro ver a peça Rock ‘n Roll Wolf. Trata-se de uma adaptação musical do conto O Lobo e os Sete Cabritinhos. A maquiagem dos atores impressionou, bem como a performance de todos. Eu fiquei até com vontade de ir ver mais uma vez, mas estão disputando os ingressos a tapas devido ao sucesso da peça.

Ontem, dia 16, foi a festa de verão organizada pela empresa em que meu marido trabalha. Eu dei aula até as 14.30 e minha sogra me deu uma carona até um ponto onde eu fiquei esperando o ônibus fretado onde meu marido estaria junto com seus colegas de trabalho e seus respectivos acompanhantes. Ao todo éramos 46 pessoas. Serviram uma baguete de lanche e seguimos até o município vizinho, Orkdal. O ônibus nos deixou em uma estação de trem histórica chamada Thamshavnbanen. Subimos à bordo do trem e o passeio foi maravilhoso (o dia estava ensolarado e quente). Uma meia hora depois chegamos a um lugar chamado Løkken, onde visitamos uma mina de extração de minério de ferro que abriu em 1654. Todos tiveram que usar capacete de segurança. Dois guias nos acompanharam pelas passagens e salas da mina, até que chegamos em um amplo salão que hoje funciona como palco para shows e eventos. A acústica do lugar era perfeita. Um músico local tocou 3 canções, duas com violino e uma com acordeon. Foi uma experiência emocionante estar em uma mina de mais de 300 anos ouvindo música folclórica norueguesa. Saindo da mina fomos jantar em um restaurante nas redondezas onde serviram comida típica. Foi uma noite agradável, pessoas muito interessantes e alegres e conversei muito. Foi ótimo para espairecer.

Hoje de manhãzinha meu marido fez uma cirurgia à laser para correção de miopia e astigmatismo. A meta é não precisar mais de óculos e lentes de contato. Tudo correu bem e agora é esperar e ver se ele pode mesmo largar os óculos de vez. Mais tarde eu vou a mais uma festa, desta vez o churrasco de encerramento da escola onde trabalho, que será em um restaurante aqui pertinho. Semana que vem haverá aula só na segunda-feira e quinta será o último dia. Volta às aulas só em agosto. Uma das vantagens de ser professora é que as férias são mais longas.

Reencontro com o blog

Reencontro com o blog

Depois de um afastamento forçado de muitos meses volto finalmente a escrever no blog. Desde março aconteceu muita coisa, mas por falta de tempo ou de inspiração não vim aqui escrever. Em março tive que fazer o trabalho de ciências políticas e em seguida o de sociologia. Os dois foram aprovados e por isso consegui o direito de fazer os exames finais. Dia 31 de maio fiz o de sociologia e dia 7 de junho o de ciências políticas. Creio que me saí bem o suficiente para passar, mas não tenho esperança nem ambição de conseguir uma nota alta.

No trabalho levei um susto em abril/maio quando fiquei sabendo que eu havia perdido o prazo para me candidatar à vaga de professora de inglês e espanhol no próximo ano letivo. O meu chefe havia me perguntado se eu queria continuar e eu disse que sim. Pensei que com isso eu seria automaticamente recontratada. O que eu não sabia é que na Noruega há uma lei que obriga as escolas a publicar anúncios de emprego para que todos tenham as mesmas oportunidades de se candidatar. Aqui há os empregos que eles chamam «fast» (fixos) e «vikariat» (temporário). Como eu ainda não estou formada na universidade, não posso ter emprego fixo e com isso tenho que me candidatar ao emprego temporário a cada ano, até eu completar minha formação e aí sim ser contratada como «fast». Fiquei com medo de perder o emprego, mas felizmente isso não aconteceu. Esta semana recebi até convite para ser «kontaktlærer» (professora responsável por uma classe e que mantém contato com os pais dos alunos), mas recusei por que não sinto que tenho experiência suficiente para abraçar uma responsabilidade tão grande. Quando eu me formar vou pensar na possibilidade. No próximo ano letivo pode ser que eu comece a lecionar «samfunnsfag», ou matérias relacionadas à sociedade como história, geografia e educação moral e cívica. Agora restam só duas semanas e vou entrar em férias para voltar ao trabalho somente no meio de agosto.

Desta vez felizmente não estou dependendo das autoridades norueguesas para poder viajar, já que meu visto permanente está coladinho no passaporte. Por isso fizemos muitos planos e essas férias prometem. Não quero dar muitos detalhes antes, mas depois das férias vou escrever aqui tudo o que aconteceu. Nunca estive tão ansiosa para as férias chegarem. Foram meses intensivos de trabalho e estudo e eu sinto que mereço muito.

No começo de maio uma coisa muito triste aconteceu. O avô paterno do meu marido (que eu adotei como meu avô também) faleceu de repente depois de lutar contra um câncer. Ele era muito saudável, esquiava, caçava e trabalhava na sua pequena fazenda. Nunca terei um instrutor de esqui tão paciente como ele. Ele nos fascinava com suas histórias, especialmente da segunda guerra mundial (a Noruega foi ocupada pelos nazistas). Vamos sentir muitas saudades.

Há ainda mais coisas para escrever, mas vou deixar para a próxima postagem.