Kategori: Inverno na Noruega

Encontro marcado com o Brasil

Encontro marcado com o Brasil

O frio implacável deu uma trégua aqui em Trondheim. As temperaturas, antes baixíssimas, subiram, mas uma temporada de chuvas e tempestades se instalou por aqui. Hoje de manhã resolvi ir a pé até a escola de norueguês para estrangeiros mais próxima para checar minha papelada, já que em abril darei entrada no meu visto permanente e só chovia e ventava. Pensei que com a elevação da temperatura o gelo tinha derretido, mas me enganei. Algumas calçadas estavam um sabão e eu, sem as minhas solas para andar no gelo, tive que andar com atenção redobrada. Dei meia volta, andei devagarinho, até que enfim cheguei até a escola. Felizmente, minha papelada estava em ordem. A regra aqui é que quem vai dar entrada no visto permanente (que pode ser requerido depois de 3 anos de residência no país) deve ter cumprido as horas obrigatórias do curso de idioma e sociedade noruegueses ou ter passado nas provas escrita e oral de norueguês do nível 3. Eu passei nas provas e recebi dispensa do curso obrigatório em 2008.

De lá peguei um ônibus e fui até um hipermercado, onde, para minha surpresa, achei mandioca! Tratei logo de comprar uma para experimentar, estava deliciosa. Isso foi uma tremenda coincidência, pois de manhã eu e meu marido havíamos comprado nossas passagens para o Brasil! Vamos em agosto e já estamos contando os dias e fazendo planos.

Aproveitando que hoje é o Dia Internacional da Mulher, vou contar um fato que criou muita polêmica por aqui na semana passada. A rampa de salto em esqui de Holmenkollen, em Oslo, foi totalmente reconstruída e, para dar o primeiro salto na nova rampa haviam escolhido a saltadora Anette Sagen. Por incrível que pareça, as saltadoras não podem competir em eventos oficiais como jogos olímpicos, por exemplo, então escolheram a Anette para homenageá-la. Acontece que horas antes do evento oficial um saltador teve a cara de pau de ir treinar na nova rampa, acabando com o barato da moça. Houve uma revolta generalizada, o atleta que saltou foi suspenso e se desculpou na TV, mas a maioria não engoliu o que ele fez. A Anette acabou saltando, mas aí o foco do evento estava no rapaz que roubou a cena. Há quem diga que fizeram tempestade em copo d’água por que quando ele saltou não havia imprensa nem público no local, enquanto outros acham que ele fez isso de propósito por pura inveja da moça.

Falando na Anette Sagen, estou lembrando de um filme norueguês muito bom que eu vi ano passado e se chama O’Horten (tem no Brasil e se chama “Caro Senhor Horten” – até no You Tube tem). Ela faz uma ponta nesse filme como a mãe do protagonista. A música desse filme é maravilhosa, vou deixar aqui um vídeo com a música tema.

Salve Simonal – Alegria, alegria!

Salve Simonal – Alegria, alegria!

Página do Google dando a temperatura em Trondheim e em São Paulo hoje, 23 de fevereiro:

Só vou sair de casa hoje se for emergência!

Este post é para homenagear um dos artistas, ou talvez o artista brasileiro mais injustiçado da história. Ontem assisti ao documentário Ninguém sabe o duro que dei, que narra a trajetória de Wilson Simonal, de seu auge até a sua triste morte, no anonimato. Ao pesquisar mais sobre ele, me deparei com uma coincidência: hoje ele estaria fazendo 72 anos. Entre tantas belas canções, escolhi a minha favorita e que traduz um pouco seu maior talento: o de fazer “o povo inteiro cantar”. Para minha sorte, meu pai tem, em seu imenso acervo de vinil muitas dessas pérolas que aparecem no vídeo.

Fazendo bico de corretora de imóveis

Fazendo bico de corretora de imóveis

Os dois bolos que eu fiz para o aniversário do Morten ficaram ótimos. O que ele levou para o trabalho eu não experimentei, mas ele disse que foi muito elogiado. Tenho a foto de recordação:

O que eu fiz para nós dois era bem menor e com outro recheio, mas ficou bom também:

Este é o bolo de aniversário mais popular aqui na Noruega e chama-se “bløtkake”, ou bolo ensopado. Trata-se se pão de ló cortado em três partes, umedecido com suco de laranja ou leite e recheado de geléia ou frutas e chantili. A cobertura é uma massa de marzipan comprada pronta. A receita está aqui. Quem entende norueguês pode ver este vídeo aqui.

Na quinta-feira, depois das aulas na escola, tive que trabalhar até mais tarde para preparar aulas, corrigir lições, etc. Não tenho problema em ter que fazer hora extra, por que teria que ficar no hotel sem fazer nada de qualquer jeito, então aproveito para trabalhar. Eu e meu marido tínhamos combinado que ele viria para Frøya na sexta de noite para entregarmos as chaves da casa para o novo dono e de lá voltaríamos para Trondheim juntos. Só que o Morten me ligou na quinta de tarde enquanto estava na escola para dizer que o novo dono da casa havia comprado fogão e geladeira e as mercadorias seriam entregues na sexta durante o dia, e por isso ele precisava das chaves antes! Resultado, eu teria que entregar as chaves sozinha e naquela mesma noite. Teria que preencher uns papéis e mostrar a casa toda para o dono e avisar sobre eventuais defeitos. Lá fui eu, meio tensa por causa da responsabilidade, mas felizmente deu tudo certo.

Hoje é domingo e a temperatura está 14 graus…negativos! O frio congelante voltou, espero que esta onde de frio não dure tanto quanto a anterior. Esta semana que começa agora tenho folga, tanto da faculdade quanto da escola, por causa das férias de inverno, uma semana livre para estudantes. Meu marido infelizmente terá que viajar a trabalho a semana toda, então terei que ficar sozinha. Bom motivo para organizar a casa e botar a leitura da faculdade em dia.

Não posso deixar de comentar que em Vancouver, no Canadá estão acontecendo as Olimpíadas de Inverno, evento pouquíssimo divulgado no Brasil. A Noruega está fazendo bonito, já conquistou 5 medalhas de ouro, 3 de prata e 3 de bronze, está colocada logo atrás dos EUA. Não posso também deixar de comentar que a maioria das medalhas norueguesas foram conquistadas por atletas daqui do meu condado, Trøndelag! Saiu até reportagem nos jornais canadenses falando disso. Morando aqui há três anos dá sim um certo orgulho.

It’s not only only

It’s not only only

A expressão idiomática que eu escrevi no título da postagem é na verdade a tradução em inglês de uma expressão norueguesa, “Det er ikke bare bare” (Não é só isso, ou “o buraco é mais embaixo”, como dizemos em São Paulo pelo menos). O instituto de línguas modernas da faculdade está lançando uma campanha publicitária para tentar atrair estudantes para a área de idiomas, que anda muito em baixa, principalmente alemão e francês. Eles usam essa expressão para mostrar ao público que traduzir diretamente do seu próprio idioma para outro não significa dominar um idioma estrangeiro. O pior é que muita gente influente por aqui fala esses absurdos na imprensa e muitos especialistas dizem que o norueguês em geral pensa que fala inglês bem, mas quando tem que falar com um inglês ou americano, se enrola todo. Eu lembro de ter lido um documento do governo onde eles afirmam que muitas empresas norueguesas perdem contratos milionários com outros países europeus por que não sabem falar inglês, alemão, francês, etc. Então, a situação é séria. Espero que esta campanha realmente atraia pessoas para a área de idiomas.

Quanto ao meu novo trabalho, posso empregar esta expressão norueguesa: “Não é só isso”. Por que eu percebi que ser professora na Noruega não se limita somente a dar aulas, corrigir provas e participar de reuniões. Enquanto no Brasil há inspetores de alunos que fazem uma ronda na hora do recreio e vigiam os alunos, na escola onde eu trabalho são os professores que estão encarregados desta tarefa. Ontem eu fui inspetora por 15 minutos, e os professores se revezam, para que todos tenham também uma pausa para almoçar. Mais um reflexo da política norueguesa de economizar funcionários, e eu acho isso bem razoável.

As aulas começam às 9 horas da manhã, e há 2 pausas de 10 minutos mais uma pausa longa de 50 minutos. Os alunos comem seus lanches na classe junto com o professor e depois podem sair da sala de aula para o recreio. Todas as salas de aula têm laptops com acesso à internet que os alunos podem emprestar para usar durante as aulas. Ontem até projetor eu usei na minha aula. Estou achando interessante aprender a rotina escolar daqui, cada dia aprendo uma coisa nova.

Nunca havia visto tanta neve em Frøya como agora. Ontem de manhã tinha que ir para a escola cedo, mas não me atrevi a dirigir enquanto o ‘brøytebil’ (trator que varre a neve para fora das estradas) não tivesse passado na minha rua. Estrada com neve fresca é um perigo. Posso dizer isso por que quando dirigi para fora da estrada foi justamente por que havia neve fresca no chão. Conclusão, arrumar o emprego dos sonhos não significa que meus problemas acabaram, pois cada dia aparece um novo desafio. Ainda bem, por que a vida sem surpresas e aventuras deve ser chata demais.

No inverno também acontecem coisas boas

No inverno também acontecem coisas boas

Ainda no mesmo tema do post anterior, a situação caótica que esta onda de frio anda causando nos lares noruegueses nos preocupou a tal ponto que começamos a pensar na nossa casinha em Frøya. Como ela está fechada e portanto sem aquecimento, ficamos com medo de que os canos congelassem e consequentemente rachassem, provocando um vazamento de água em proporções catastróficas. Ontem resolvemos dar um pulinho até Frøya para ver como estavam as coisas. E é daqui que eu estou escrevendo agora. Ao chegar, levamos um susto ao ver quanta neve havia no nosso quintal e no estacionamento. Quando cai uma certa quantidade de neve, temos que ‘varrer’ a neve dos lugares em que costumamos andar e estacionar o carro e fazer grandes ‘montinhos’ nos cantos do quintal. Como estávamos ausentes, isto não foi feito. Mas, hoje vamos tentar varrer um pouco de neve antes de ir embora. Os canos estavam congelados, mas felizmente não houve sinal de vazemento. Ligamos todos os aquecedores e acendemos a lareira, e a água foi descongelando aos poucos.

Estou muito feliz também por que estou escrevendo no meu primeiro laptop próprio! 😀 Ontem eu e meu marido resolvemos que estava na hora de eu ter meu próprio computador em vez de dividirmos um só entre nós dois. Tínhamos um velhinho que queimou quando caiu em raio aqui em Frøya e quando eu precisava escrever trabalhos de faculdade, tinha que ir até a universidade e usar os computadores deles. Agora vai ser bem mais prático para mim organizar meus projetos. Enquanto eu fui fazer a limpeza no jardim de infância, ele foi fazer uma ‘via sacra’ nas lojas atrás da melhor oferta e ele achou um computador que eu adorei. Há também um outro motivo pelo qual eu preciso de um computador próprio, mas este eu vou contar mais durante a semana, por que ainda não tenho todos os detalhes. O que eu posso adiantar é que eu estou muito, mas muito feliz. Congelada, mas feliz. :o)

Espécie de pá para varrer a neve

A anatomia do frio ou ‘Velkommen til Norge’

A anatomia do frio ou ‘Velkommen til Norge’

Tendo morado na Noruega há exatos 3 anos, 2 meses e 18 dias e já tendo passado por algumas poucas e boas, estava convencida de que eu já havia superado a fase de adaptação e que realmente não havia mais nada na Noruega que pudesse me meter medo ou significar um novo desafio para mim.

Estava redondamente, completamente, totalmente enganada.

Este ano o inverno norueguês está implacável. Está nos jornais, nos noticiários de TV, na boca do povo. Quando os próprios noruegueses choramingam sobre o quanto está frio, soa um alarme. Quando a temperatura passa dos míseros 10 graus positivos na primavera, eles saem de bermuda, camiseta regata, chinelo. Então, para eles começarem a tremer nas bases e entrarem em pânico, tem que estar muito, mas muito, mas muuuuito frio!

E agora, minha gente, está muito, mas muito, muuuuuito frio!

Esta semana em Trondheim a temperatura está oscilando entre 10 e 15 graus negativos. Há lugares em que a temperatura chegou a 42 graus negativos! Não consigo nem começar a imaginar o que significam 42 graus negativos!

Não sai uma gota d’água da minha torneira na cozinha. Falta de água? Me esqueci de pagar a conta? Não. Foi a água que congelou ao passar pelo cano!

Pra sair na rua, não basta um casaquinho, não. Duas calças (pra garantir, uma terceira calça – de lã), dois pares de meias de lã, duas blusas de lã, casaco de lã, cachecol de lã, gorro de lã, luvas de lã, sapatos de lã. Se não houvesse lã, a Noruega seria hoje um deserto inabitável.

O cachecol tem que cobrir o rosto todo – as bochechas, as orelhas e o nariz congelam se não cobrimos o rosto todo menos os olhos. Quem usa óculos, como eu, tem um desafio extra. A respiração que condensa embaça os óculos. Quando eu tiro os óculos para limpá-los, a surpresa: as lentes estão congeladas!

Não vou me admirar se um dia, ao sair para trabalhar, eu endurecer no meio da rua, quando estiver prestes a dar um passo. Será um caso real de alguém que virou picolé.


Tenho sapatos como estes para aguentar o frio.