Kategori: vida na Noruega

Blog abandonado, 9 anos de Noruega!

Blog abandonado, 9 anos de Noruega!

Infelizmente deixei muito de lado a dedicação a este blog. A perda do meu pai me abalou muito, parece que escrever aqui perdeu o sentido para mim em muitos aspectos. Mas visito o blog regularmente e hoje resolvi responder a alguns comentários pendentes e escrever esta curta postagem contando o que tenho feito nos últimos meses.

Nas férias de verão deste ano eu e Morten viajamos ao Brasil. Ficamos a maior parte do tempo em São Paulo, mas viajamos também a Arraial d’Ajuda na Bahia por uma semana. Adoramos o lugar e as pessoas, definitivamente queremos voltar.

Em agosto me matriculei em três matérias de religião na faculdade (NTNU). A ideia era conseguir mais 60 créditos para passar da posição de adjunkt (professora com créditos em três matérias + pedagogia) para adjunkt med opprykk (professora com créditos em mais de três matérias + pedagogia). Estava muito animada, comprei os livros e comecei a ler, mas depois de dois meses percebi que teria que escrever trabalhos muito extensos além de fazer os exames em dezembro. Isso tudo ao lado do meu emprego em período integral e casa para cuidar. Joguei a toalha. Não foi fácil engolir a derrota, mas após muita reflexão eu cheguei à conclusão de que já estudei muito para chegar onde cheguei, e não tenho que provar mais nada nem para mim mesma, nem para os outros. Penso em fazer essas matérias no futuro, mas não juntas. Acho que consigo fazer uma por semestre. As matérias em questão são: Iniciação ao cristianismo, Cristianismo pagão e Arte e religião (esta eu definitivamente vou cursar!)
Quero também cursar matérias sobre outras religiões, já que eu leciono a matéria KRLE (Kristendom, Religion, Livssyn og Etikk – Cristianismo, Religião, Visão de vida e Ética) na escola norueguesa.

Há duas semanas, nas férias de outono daqui, eu e Morten arrematamos uma viagem super em conta para Praga, na República Tcheca. Primeiro fomos de carro até Oslo, e de lá pegamos o avião até Praga. Me encantei pela cidade, tenho muitas fotos, posto talvez mais tarde.

Semana passada eu finalmente dei entrada no processo de naturalização. Eu vou me naturalizar norueguesa, porém sem ter que perder a nacionalidade brasileira. As leis da Noruega não permitem que um cidadão norueguês tenha duas cidadanias, mas as leis brasileiras por outro lado proíbem que um cidadão seja forçado a desistir de sua cidadania. Ter um passaporte norueguês facilita minha vida fora da Noruega, não dentro. Tenho o oppholdskort, o cartão de residência permanente há vários anos, e com ele tenho direito a tudo que um cidadão norueguês tem. A única coisa que não posso fazer é votar nas eleições para o parlamento. Votei nas eleições municipais em setembro pela segunda vez sem problemas. Ser norueguesa facilita a vida nos aeroportos europeus, pois posso pegar a fila dos cidadãos de países Schengen, ou seja, os cidadãos de países europeus que assinaram o tratado de livre circulação. Viajar para os Estados Unidos é aparentemente mais tranquilo com o passaporte norueguês. Ouvi falar que há uma cerimônia na prefeitura todo ano com todos os “novos” noruegueses, e se eu obter a cidadania, vou comparecer com o meu bunad, sim!

Falando em bunad, eu preciso marcar hora com a costureira para fazer os ajustes. Quero fazer isso antes do 17 de maio.

Sei que estou devendo a segunda parte do vídeo do 17 de maio, vou postar. Estou pensando se começo a fazer vlogs no You Tube, como muitas brasileiras que morar aqui já fazem. Penso que é muita exposição, além do tempo que se usa editando e filmando. Mas é algo mais vivo, talvez mais interessante que postagens escritas. Não sei…

8 anos de Noruega!

8 anos de Noruega!

Tempos de faxina
Ontem, 22 de outubro, fez 8 anos desde que vim parar na Noruega. Para marcar a data resolvemos rever as fotos do dia em que cheguei e o que aconteceu nos próximos meses. Devo admitir que fiquei emocionada ao recordar todas as experiências que vivenciei nesses oito anos. As fotos mais especiais foram as da época em que eu trabalhava de faxineira. Uma época difícil, em que eu sentia que a vida não progredia por causa da falta de oportunidades e cheguei a pensar que teria que me contentar em trabalhar em ocupações que não condiziam com minhas ambições e competência. Fazer faxina era um trabalho digno, tranquilo, mas eu tinha uma meta de que esse serviço seria um ganha-pão temporário enquanto eu não conseguisse outras oportunidades. Mas, nunca, nunca mesmo cogitei a possibilidade de voltar ao Brasil. Desde o começo via a Noruega como meu novo e definitivo lar.
Foi quando me tornei fluente em norueguês e tirei minha carteira de motorista norueguesa que as primeiras portas se abriram. Ainda na faxina, mas com mais trabalho e melhor renda. O fato de eu poder dirigir meu próprio carro aonde eu quisesse me deu auto-confiança e forças para alçar voos mais altos. Passei de uma faxineira que sempre ia fazer limpeza junto com outras colegas a uma faxineira quase que autônoma, que podia ir sozinha a qualquer lugar para trabalhar por que sabia conversar com o cliente e não dependia de condução e de carona.

Artigo de jornal com minha classe do ensino médio para adultos
Mas, definitivamente, foi quando eu me matriculei no curso de capacitação para adultos que queriam fazer faculdade (Studiekompetansekurs) que eu percebi que havia ótimas oportunidades esperando por mim. Comecei a ler literatura de qualidade em norueguês, aprendi sobre a sociedade e estudei em uma classe formada somente de alunos noruegueses, o que me ajudou muito para melhorar o convívio social. Um grande erro é emigrar e não se misturar com os noruegueses, por que cria uma segregação voluntária por parte dos estrangeiros. Fiz o exame final em norueguês junto com todos os alunos do colegial (videregående skole), tirei nota 4 (nota máxima é 6) e tirei nota 6 na prova oral, também em norueguês. Nunca vou me esquecer da frase que a professora que me examinou disse ao me comunicar a nota: “Sua nota é seis, mas bem que poderia ser um sete!”.

Ao deixar a vida na pequena ilha Frøya e me mudar para Klæbu, ao lado de Trondheim e com certificado de Studiekompetanse em mãos, me matriculei na NTNU para cursar um ano de Letras em Inglês. Foi nesse ano que comecei a sentir que meus sonhos poderiam, sim, se realizar. Estar em uma aula de literatura com professores ingleses que davam um verdadeiro show de conhecimento, que me puseram em contato com obras primas de textos e poemas alegravam os meus dias e me faziam querer aprender mais e mais. Lembro que me senti muito triste ao receber a notícia de que meu avô havia falecido e eu não poderia estar em seu funeral.

Ao completar o ano de Letras em Inglês, nos mudamos para um apartmento alugado em Trondheim e me matriculei em Letras em Espanhol. Nesta época fazia faxina em uma creche. Em janeiro de 2010 me cadastrei em uma agência de empregos temporários e, por ironia do destino, recebi, em março, uma proposta para trabalhar como professora em uma ilha chamada Frøya. Larguei a faxina e passei a lecionar dois dias por semana. Tinha que fazer uma viagem de barco de 2 horas, mais uma viagem de ônibus de 1 hora para chegar ao meu local de trabalho. Na volta, uma viagem de ônibus com duração de 3 horas. Foi nessa época em que recebi a notícia de que com mais 60 créditos eu poderia fazer Prática Pedagógica e tirar a licenciatura que me autorizaria a lecionar. Me matriculei então no curso de Ciências Sociais para obter esses 60 créditos. Em julho de 2010 recebi um telefonema da escola onde trabalho até hoje. Eles queriam me contratar como professora de espanhol. A mesma escola em que meu marido estudou. Nada de longas viagens para trabalhar, agora tinha um emprego na cidade vizinha à Trondheim! Comecei somente lecionando espanhol, logo passei a lecionar inglês e hoje leciono, além dessas duas matérias, história, geografia, estudos sociais e religião.

Esta vista é um privilégio e uma inspiração para continuar batalhando
Em agosto de 2011 começava a Prática Pedagógica junto com o trabalho. Foram certamente os anos mais estressantes da minha vida na Noruega. Sempre algo para ler, um trabalho para entregar, provas para corrigir e finalmente o estágio, que exigiu muito do meu tempo. Em maio de 2012 realizamos o sonho da casa própria  e compramos nosso apartamento que não trocaríamos por nada nesse mundo. Temos uma das vistas mais lindas da cidade. Em junho de 2013 entreguei meus trabalhos finais e fiz o exame oral. Nota A no exame oral de pedagogia, Nota A no trabalho escrito de pedagogia, Notas B nos dois trabalhos de didática de inglês e de espanhol. Havia chegado ao fim da linha. Tinha documentação que provava que eu era uma professora com competência formal para lecionar em qualquer escola do ensino fundamental e médio do país.

Viajamos para o Brasil em julho do ao passado e passamos 5 meses e meio descansando, férias longas e merecidas financiadas com muito trabalho e economias. Ao voltar eu já tinha contrato assinado com a escola para um emprego permanente. Recebi a proposta para aumentar a carga horária, de 80% para 100%. Hoje, trabalho com o que gosto e sinto que fiz as escolhas certas.

Os planos para o futuro são fazer ainda mais um curso na NTNU, de religião e conseguir ainda mais 60 créditos para melhorar meu currículo. Nesta semana enviei meus documentos e agora é aguardar a resposta.

Oito anos de muito trabalho, estudos, saudades da família, vitórias, derrotas e muitas alegrias. Que venham mais 8!

Lugar ao gelo garantido por escrito

Lugar ao gelo garantido por escrito

Ontem, o diretor da escola me chamou para assinar meu contrato de trabalho. Li atenciosamente o contrato e lá estava a palavrinha mágica: “fast stilling”. Emprego efetivo. Ninguém tirará o emprego de mim, a não ser que eu mesma peça demissão ou faça algo muito, mas muito sério. Nada mais de nervosismo ao final de cada ano letivo, pensando “será que eles vão renovar o contrato para o ano que vem?” e “e se aparecer uma pessoa melhor qualificada e eles a escolherem?” Vou trabalhar 80 %, ou seja, 24, 6 horas semanais. Mas, primeiro vou tirar férias. Longas e merecidas, esquecer trabalho e faculdade por um bom tempo. Ainda não recebi minha cópia do contrato, só vou acreditar completamente quando o tiver em minhas mãos.

Hoje foi o dugnad de primavera aqui no prédio onde moro. Dugnad significa mutirão e todos os moradores (pelo menos no papel) têm que comparecer e trabalhar nas áreas comuns do prédio. Eu e o meu marido trabalhamos no jardim, rastelamos as folhas secas no terraço na parte anterior do prédio, podamos os arbustos e as árvores, lavamos o corredor entre a entrada principal e o terraço, enfim, acho que contribuímos mais que o suficiente. Somente dois moradores não deram sinal de vida, mas, felizmente, aqui é difícil alguém fugir de sua responsabilidade, eles terão que trabalhar depois. Se alguém não paga o condomínio do apartamento, o apartamento é vendido para pagar a dívida e o caloteiro tem que se mudar. Quando eu morei em prédio no Brasil, muita gente não pagava o condomínio e ficava impune (mas, carro zero, ah, isso eles podiam pagar…).

Resultado do nosso trabalho no dugnad de primavera